A surpreendente aliança de Trump na Venezuela: Por que a vice de Maduro ganhou apoio em vez da oposição?
A recente reviravolta na política externa dos Estados Unidos em relação à Venezuela deixou muitos em choque. Donald Trump, presidente dos EUA, e figuras importantes como o Secretário de Estado, Marco Rubio, negaram a possibilidade de que a líder opositora Corina Machado estivesse à frente de uma eventual transição no país.
Em vez disso, as declarações de Trump, após os eventos que levaram à prisão de Nicolás Maduro, indicaram um caminho inesperado. Trump afirmou que os EUA administrariam a Venezuela, mas não necessariamente sob o comando da oposição, representada por Machado e Edmundo Gonzáles Urrutia, considerado por muitos o presidente eleito após as eleições de 28 de julho de 2024.
A oposição venezuelana denunciou fraude eleitoral após o Conselho Nacional Eleitoral proclamar Maduro vencedor sem apresentar registros oficiais. Conforme informações divulgadas, a oposição coletou 85% das cópias das atas de votação que confirmariam sua vitória. No entanto, a esperada troca de governo não ocorreu, e Delcy Rodríguez, até então vice-presidente, assumiu interinamente a presidência, conforme a Constituição venezuelana.
Corina Machado: Da esperança à desconfiança de Trump
Corina Machado, uma figura proeminente na oposição venezuelana, descreveu Delcy Rodríguez como uma das principais operadoras de tortura, perseguição, corrupção e tráfico de drogas. Machado elogiou as “ações corajosas” de Trump e chegou a dedicar o Prêmio Nobel da Paz que recebeu em outubro ao presidente americano, expressando o desejo de retornar à Venezuela o mais rápido possível.
Machado apresentou um plano ambicioso para a Venezuela, que incluiria transformá-la em um centro energético para as Américas, restaurar o Estado de Direito para garantir a segurança de investimentos estrangeiros e facilitar o retorno dos venezuelanos que deixaram o país durante o governo Maduro. Antes das declarações de Trump, um cenário considerado era o retorno de Edmundo Gonzáles à Venezuela com Corina Machado como sua vice-presidente.
No entanto, analistas como Carmen Beatriz Fernández, da Universidade de Navarra, indicam que esse cenário parece ter perdido força. Machado vinha se alinhando ao discurso do governo Trump, mas a relação entre eles é vista por alguns como uma ilusão. “Trump e Corina Machado nunca foram aliados. Isso é uma ilusão. Ele nunca reconheceu a liderança dela. O aliado ali, o interlocutor, é Marco Rubio”, disse um analista venezuelano à BBC News Mundo.
A “Realpolitik” de Trump e o Foco no Petróleo Venezolano
A abordagem de Marco Rubio, Secretário de Estado dos EUA, é descrita como “realpolitik”, uma política pragmática focada em interesses nacionais. O objetivo de Trump seria assegurar uma transição ordenada e estável para evitar mais migração venezuelana. Há também a expectativa de que contratos petrolíferos sejam direcionados a empresas americanas, algo que poderia ser facilitado pela nova Assembleia Nacional, controlada pelo partido de Maduro.
Reportagens de veículos como o The New York Times sugerem que o governo Trump considera Corina Machado isolada politicamente e empresarialmente na Venezuela. Uma tentativa de substituir o governo Maduro neste momento poderia levar a uma escalada de violência. O principal foco de Trump e seu entorno, segundo a mídia americana, é o petróleo venezuelano.
A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, com uma estimativa de 303 bilhões de barris. Trump afirmou publicamente que empresas petrolíferas norte-americanas devem investir bilhões de dólares para recuperar a infraestrutura deteriorada do país e gerar lucros. A profunda influência do chavismo nas instituições e nas Forças Armadas venezuelanas torna a tarefa de desmontar essa estrutura um desafio monumental.
Um Novo Cenário: Transição Supervisionada pelos EUA?
Analistas apontam que uma transição onde a oposição esteja no comando parece improvável. Em vez disso, pode haver uma mudança supervisionada por “operadores internos” do próprio país, semelhante a transições ocorridas no Chile e na Espanha. Edmundo González ressaltou que um verdadeiro processo de transição democrática exigiria a libertação imediata de presos políticos e lealdade à Constituição e ao povo.
Fernández sugere que os EUA estariam apostando em um cenário onde Delcy Rodríguez assume a transição, com um conselho de administração liderado por Trump, Rubio e o Secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth. O apoio de Emmanuel Macron, presidente da França, à soberania popular expressa nas eleições de 2024, também foi retuitado por Trump, indicando um possível alinhamento internacional.
Apesar das reviravoltas políticas, a liderança de Corina Machado na Venezuela é considerada indiscutível, com altos níveis de aprovação. Fernández avalia que, se a transição liderada pelos EUA para Delcy Rodríguez for bem-sucedida, haverá uma nova eleição, na qual Corina Machado provavelmente concorrerá. No entanto, a oposição, incluindo Machado e González, ainda enfrenta o exílio, perseguições e impedimentos para ocupar cargos públicos, dependendo das redes sociais para manter o ânimo de seus apoiadores.
