Economista Marcos Troyjo prevê cenário global ESG 2.0 com oportunidades inéditas para o Brasil impulsionadas por recursos naturais e agronegócio
O economista e diplomata Marcos Troyjo avalia que a configuração atual da ordem global, caracterizada por uma transição para o modelo ESG 2.0, oferece perspectivas promissoras para a economia brasileira. Segundo ele, a nova dinâmica mundial, que prioriza questões econômicas, de segurança e geopolíticas, transforma o comércio, a moeda e as reservas naturais em instrumentos de negociação, um cenário complexo para a maioria das nações, mas particularmente vantajoso para o Brasil.
O ex-presidente do Banco dos Brics destaca que o país pode se beneficiar significativamente de suas vantagens comparativas no agronegócio e em seu vasto estoque de terras raras, mesmo diante de incertezas macroeconômicas e fiscais. A abundância de minerais críticos, em particular, é vista como uma alavanca estratégica nesse novo contexto internacional.
Troyjo explica que a transição do ESG 1.0 para o ESG 2.0 marca uma mudança de um foco predominantemente ambiental, social e de governança para uma ênfase maior em aspectos econômicos e geopolíticos. Essa nova fase global é marcada por inseguranças em cadeias de suprimentos, energia e alimentos, além da crescente instrumentalização de recursos nacionais para negociações internacionais. “Você transforma o seu comércio numa arma, a sua moeda numa arma, as suas reservas naturais numa arma, que vão ser instrumentalizadas na mesa de negociação”, afirma o economista.
As economias emergentes, como o grupo E-7 (China, Índia, Brasil, Indonésia, Turquia, México e Arábia Saudita), ganham proeminência frente ao G-7. O crescimento expressivo de populações em países como a China e a Índia, por exemplo, multiplica a demanda por nutrientes e insumos para infraestrutura, áreas onde o Brasil detém fortes vantagens competitivas. O comércio entre Brasil e China, que era de US$ 1 bilhão anualmente em 2001, projetava atingir US$ 1 bilhão a cada 48 horas em 2026, ilustrando a magnitude dessa evolução.
No que tange aos minerais críticos, o Brasil se posiciona como o segundo maior detentor global, com 23% das reservas mundiais, superando em posse os demais países listados após a China. Essa concentração de recursos naturais coloca o país em uma posição estratégica para suprir a demanda crescente por esses insumos essenciais para as tecnologias do século 21.
Apesar das oportunidades, o Brasil enfrenta desafios internos, como deficiências em infraestrutura, portos e armazenagem. Contudo, a escassez global de alimentos e a instabilidade geopolítica elevam a importância do protagonismo brasileiro. “No mundo em que é o contrário de tudo isso que eu descrevi, em que existe uma enorme insegurança jurídica, se você tem um protagonista tão importante como é o caso do Brasil, com deficiência infraestrutural, deixa de ser um problema brasileiro, mas é um problema de várias pessoas, de vários atores”, comenta Troyjo.
Em termos de investimento estrangeiro direto, o Brasil tem se destacado, posicionando-se como o segundo maior destino global nos últimos 48 meses, superando a China e ficando atrás apenas dos Estados Unidos. No entanto, Troyjo alerta para as “barbeiragens macroeconômicas”, como o alto endividamento público e a elevada carga tributária, que competem por crédito com o setor produtivo e elevam os juros, dificultando o cenário para o investidor.
Apesar dos percalços, o contexto geopolítico global, mesmo com as mazelas internas do Brasil, tende a manter o fluxo de investimentos. A carga tributária brasileira, atualmente em 33% do PIB, é significativamente superior à média dos países emergentes (19%), mas há potencial de otimização que poderia direcionar recursos para infraestrutura.
Sobre acordos comerciais, como o entre Mercosul e União Europeia, Troyjo prevê impactos positivos no aumento de exportações e importações, no fluxo de investimentos diretos e na dinâmica de reformas internas. Ele ressalta que o Brasil precisa ser pragmático nas relações internacionais, ampliando negócios com diversas regiões, incluindo Ásia, Índia, Indonésia e Estados Unidos, sem perder de vista o potencial do mercado europeu.
O economista defende uma maior abertura comercial, apontando que o Brasil historicamente importa uma parcela muito pequena de seu PIB em comparação com outras economias. Ele sugere que o país pode e deve aumentar seu intercâmbio comercial com o mundo, aproveitando o potencial de mercados como os Estados Unidos, onde atualmente detém uma fatia mínima do mercado importador.
