Guerra no Irã desencadeia crise econômica mundial com EUA como principal beneficiado segundo análises
As consequências de dois meses de guerra no Irã, deflagrada pelos Estados Unidos, estão provocando severos impactos econômicos globais. Fábricas têxteis na Índia e em Bangladesh fecham as portas, voos são cancelados na Europa e países asiáticos enfrentam racionamento de energia. Em contrapartida, os Estados Unidos, país iniciador do conflito, mostram-se relativamente poupados, com crescimento estável e baixo desemprego, conforme aponta análise do Royal Bank of Canada.
Os Emirados Árabes Unidos, uma das nações mais ricas do planeta, solicitaram assistência financeira aos EUA após danos em instalações de gás e a interrupção do transporte no Estreito de Ormuz. A escalada dos preços de combustíveis e fertilizantes eleva o custo dos alimentos mundialmente. O Fundo Monetário Internacional alertou para a insegurança alimentar como uma ameaça significativa na África, enquanto o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento estima que milhões na Ásia correm risco de cair na pobreza devido ao conflito.
A escassez de combustível já afeta muitos países asiáticos e a tendência é de piora com a prolongação da guerra, segundo Raghuram Rajan, economista da Universidade de Chicago e ex-presidente do Banco Central da Índia. “A escassez vai começar a atingir cada vez mais setores”, previu Rajan, que também ocupou um cargo de destaque no Fundo Monetário Internacional. “A água já está esquentando, o sapo está dentro dela e a temperatura está subindo”, acrescentou. “E agora, cada vez mais, você vai ver indústrias fechando.”
Indústrias siderúrgicas na Índia e montadoras no Japão já reduziram a produção devido aos custos energéticos elevados e à perspectiva de queda na demanda. Na China, fábricas de brinquedos, já impactadas por tarifas americanas, enfrentam greves de trabalhadores descontentes com a perda de empregos. Em Firozabad, na Índia, trabalhadores relatam a diminuição de oportunidades e salários mais baixos. Aaas Muhammad, um trabalhador de 25 anos, caminhou quilômetros em busca de trabalho, aceitando um valor significativamente inferior ao habitual, agravado pelo aumento do preço do gás de cozinha.
Milhões de indianos que trabalham nos Emirados Árabes Unidos e na Arábia Saudita, e enviam remessas anuais bilionárias, estão impedidos de retornar aos seus países sem trabalho. A escassez de produtos como hélio, alumínio e nafta, que também transitam pelo Estreito de Ormuz, afeta desde preservativos até microchips.
A economia americana não está completamente imune. Os preços da gasolina nos EUA subiram mais de US$ 1 por galão, impactando o bolso dos consumidores, especialmente os de menor renda. Em Wall Street, bancos revisaram projeções de crescimento e inflação, adiando expectativas de cortes de juros. Contudo, o impacto doméstico é considerado moderado em comparação com outras regiões, com consumo forte e baixas demissões. Uma recessão nos EUA só seria uma preocupação séria com o preço do petróleo atingindo cerca de US$ 150 por barril.
A principal vantagem americana reside na produção de petróleo e gás superior ao consumo, amortecendo o choque energético. A economia, fortemente baseada em serviços e menos dependente de indústrias intensivas em energia, mostra maior resiliência. Jason Bordoff, diretor do Centro de Política Energética Global da Universidade Columbia, observa que os EUA são “os últimos a sentir os efeitos” de um choque global dessa magnitude.
Entretanto, a prolongação do conflito pode intensificar os efeitos nos EUA, com aumento dos custos de transporte e pressão sobre outros bens. Ben Harris, economista da Brookings Institution, pondera que “se [o choque] persistir, provavelmente estaremos tendo uma conversa muito diferente daqui a seis meses”.
