O Interesse Americano no Petróleo Venezuelano: Um Jogo de Tipos e Reservas
Apesar de os Estados Unidos liderarem a produção mundial de petróleo, o interesse em reativar o setor petrolífero da Venezuela, sob o plano de Donald Trump, levanta questões estratégicas cruciais. A diferença reside no tipo de petróleo que cada país produz e nas necessidades específicas das refinarias americanas.
Enquanto os EUA se destacam na extração de petróleo bruto leve, muitas de suas refinarias, especialmente na costa do Golfo do México, são projetadas para processar um tipo de petróleo mais pesado e viscoso. Este tipo de petróleo é abundante na Venezuela, que detém as maiores reservas conhecidas do mundo, superando até mesmo a Arábia Saudita.
Essa disparidade no tipo de petróleo e a capacidade instalada das refinarias americanas explicam o apelo do petróleo venezuelano. Conforme informações divulgadas, reequipar as refinarias americanas para processar exclusivamente petróleo bruto doméstico seria um investimento bilionário e de longo prazo, tornando o acesso ao petróleo venezuelano uma alternativa mais imediata e atraente para as empresas dos EUA.
A História de um Legado Petrolífero em Declínio
A economia da Venezuela é intrinsecamente ligada ao petróleo, que representa cerca de 90% de suas receitas de exportação. No entanto, a indústria petrolífera do país sofreu um declínio acentuado desde a década de 1990, caindo de mais de 10% da produção global para menos de 1% atualmente. A produção despencou mais de 70% desde o final dos anos 90.
O colapso tem raízes no governo do ex-presidente Hugo Chávez, cujas políticas socialistas levaram à corrupção na estatal PDVSA e à fuga de investimentos estrangeiros. Acidentes em infraestruturas e as sanções impostas pelos EUA, intensificadas a partir de 2017, agravaram ainda mais a situação, limitando a capacidade de produção.
A PDVSA conseguiu estabilizar a produção em cerca de 1 milhão de barris por dia, em parte devido a licenças especiais concedidas pelos EUA a algumas empresas estrangeiras, como a Chevron, que retomou exportações em 2022. Essa licença, renovada em outubro, visa aliviar pressões no mercado internacional de petróleo.
O Papel das Empresas Americanas e os Desafios Legais
No século XX, empresas petrolíferas americanas foram pilares do setor na Venezuela, com investimentos significativos. Após a revolução de Chávez, todas, exceto a Chevron, deixaram o país. O plano de Trump prevê o retorno de grandes empresas, como a ExxonMobil e a ConocoPhillips, cujos ativos foram expropriados anteriormente.
Tanto a ExxonMobil quanto a ConocoPhillips ganharam indenizações multimilionárias em arbitragem internacional, mas a Venezuela nunca as pagou. Essa situação é a base para a alegação de Trump de “petróleo roubado”. A ConocoPhillips afirmou estar monitorando os acontecimentos, mas considera prematuro especular sobre investimentos futuros.
Apesar de a presidente interina da Venezuela ter estendido a mão para cooperação, não está claro se o governo venezuelano cooperará com os EUA na questão petrolífera. A infraestrutura petrolífera do país, embora aparentemente intacta, necessita de investimentos massivos para ser modernizada e explorada em sua capacidade total.
Demanda Global e a Influência Chinesa no Setor
A demanda mundial por petróleo e os preços em queda, com expectativa de declínio adicional em 2026 devido a um excesso de produção, adicionam complexidade ao cenário. A concretização das expectativas de Trump sobre o petróleo venezuelano poderia saturar ainda mais o mercado global.
A China tem sido um parceiro econômico e político crucial para a Venezuela, com a empresa CNPC mantendo uma joint venture com a PDVSA. Grande parte do petróleo venezuelano é exportado para a China, que, contudo, não expandiu significativamente suas operações no país, mesmo com a ausência americana. Pequim criticou a captura de Maduro como uma violação da soberania venezuelana.
A restrição à produção venezuelana nunca foi geológica, mas sim resultado de governança, sanções, acesso a capital e execução. Uma mudança política que traga estabilização e um poder credível sobre a PDVSA poderia levar a um aumento gradual da oferta, mas não repentino. O volume exato de novos investimentos necessários para revitalizar a indústria petrolífera venezuelana só ficará claro nos próximos meses.
