A economia brasileira sentirá um impacto direto mínimo com o colapso do regime de Nicolás Maduro na Venezuela. Isso se deve, principalmente, ao fato de que a Venezuela representa uma parcela pequena nas exportações e importações do Brasil. No entanto, a instabilidade política e econômica no país vizinho pode gerar reflexos importantes em outros setores da economia brasileira, como no mercado de petróleo e na trajetória da inflação.
Conforme informações divulgadas por economistas e profissionais do mercado financeiro, a principal preocupação reside na possível volatilidade dos preços do petróleo e de outros ativos financeiros. A incerteza gerada por conflitos militares tende a elevar o risco global, levando à busca por ativos de proteção como o dólar e o ouro, além de aumentar a volatilidade em bolsas de mercados emergentes.
Apesar de a Venezuela deter a maior reserva de petróleo do mundo, sua participação no comércio exterior brasileiro é reduzida. Entre janeiro e novembro de 2025, as exportações brasileiras para o país somaram apenas US$ 751 milhões, representando 0,24% do total. As importações também foram baixas, totalizando US$ 314 milhões, ou 0,12% das compras brasileiras. Essa corrente comercial diminuiu 30% em 2025 comparada ao ano anterior, conforme dados da Comex, do MIDC. O peso da balança comercial com a Venezuela no PIB brasileiro é inferior a 0,03%, segundo projeções do Bradesco BBI.
Petróleo em Foco: Petrobras e Preços Internacionais Sob Pressão
A declaração do presidente Donald Trump sobre a entrada de petroleiras americanas na Venezuela para explorar suas reservas de petróleo adiciona uma camada de complexidade. A expectativa de uma maior oferta global de petróleo, caso essas operações se concretizem, pode pressionar os preços para baixo no longo prazo. Contudo, no curto prazo, a incerteza sobre a oferta pode gerar o efeito oposto, elevando a cotação do barril no mercado internacional, segundo Roberto Ardenghy, presidente do IBP. A Petrobras, por ser a protagonista no setor de petróleo no Brasil e ter potencial para projetos na Venezuela, é a empresa mais exposta a essas flutuações. A alta do petróleo, impulsionada pela expectativa de retração na produção venezuelana, pode inicialmente favorecer a Petrobras, conforme projeções da ANP.
Inflação e Juros: O Banco Central em Alerta
A persistência da alta do petróleo e de outros ativos financeiros, como o dólar, pode contaminar os índices de preços no Brasil, elevando a inflação. Nesse cenário, o Banco Central pode optar por adiar o início do corte da taxa básica de juros, a Selic, atualmente em 15% ao ano. Essa decisão contrariaria a expectativa predominante do mercado, que previa o afrouxamento monetário entre março e julho de 2025. A instabilidade global também favorece a valorização de ativos de proteção, como o ouro e o dólar, aumentando a volatilidade em bolsas emergentes.
Estados Fronteiriços e Dívida Externa: Impactos Regionais e Financeiros
Os estados brasileiros que fazem fronteira com a Venezuela, como Roraima, podem sentir um impacto mais acentuado. Em 2024, Roraima destinou 46% de suas exportações para a Venezuela. Os setores mais afetados no estado incluem alimentos, como óleo de soja e farinha de trigo. Quanto à dívida externa, a Venezuela tem um débito de aproximadamente US$ 2,5 bilhões com o Brasil, o que representa 0,7% das reservas brasileiras. Parte dessa pendência, que inclui financiamentos para obras de infraestrutura como o Metrô de Caracas, já foi contabilizada nas contas públicas brasileiras devido à inadimplência venezuelana.
Perspectivas de Longo Prazo: O Papel das Investimentos Americanas
A participação futura da Venezuela no comércio exterior brasileiro dependerá fortemente da recuperação econômica do país e da confirmação dos investimentos prometidos pelos Estados Unidos. Se a Venezuela voltar a ter capacidade de compra, o Brasil poderá se beneficiar com o aumento das exportações. No entanto, a intervenção americana na indústria petrolífera venezuelana, se resultar em maior oferta global, pode representar uma perda para o Brasil no longo prazo, pois investimentos que poderiam vir para o país podem ser direcionados para a Venezuela. A recuperação da demanda venezuelana, embora incerta no curto prazo, pode ser um fator positivo para o comércio bilateral no futuro, especialmente se o país voltar a importar volumes significativos de produtos brasileiros.
